Há oitenta anos, o campo era habitado.
Não se percorria duzentos metros sem ouvir um cão latir ou um galo cantar.
As favelas começaram no Rio de Janeiro, após a escravidão.
Mais tarde, um certo governante fez um decreto para esvaziar o campo.
Onde os moradores terceirizados moravam, cada morador tinha um hectare de terra.
Ao redor do seu rancho, onde tinha uma horta, uns pés de café, uma moita de cana para fazer o café.
Um chiqueiro tendo uma porca criadeira, alguns leitões, no pasto podia ter uma cabrita para dar leite para as crianças. Quando o patrão precisava dos serviços do terceirizado, ele o contratava, a diária da época era um quilo de gordura ou toucinho. Acabando o serviço do dono das terras, ele ia fazer o dele para plantar a terça com o dono das terras. Hoje está tudo mudado, o campo está vazio, até a casa grande está em ruína.
Os pastos sujos, porque o salário é alto comparado à renda das terras e o adubo é caro, não compensam porque ficará bem mais caro que ser comprado no supermercado. Eu estou escrevendo isto porque nasci e vivi no campo, nesta época ninguém passava fome nem dormia debaixo de marquises. Falo com toda certeza: se tivermos um governante que retornasse todos para o campo, muitos de quem são moradores em favelas voltariam para o campo, o Brasil ganharia tendo os rios mais limpos e as moradias irregulares em lugares perigosos. O campo produzia para sustentar a todos que voltaram e ainda sobraria para ser vendido ou trocado, como agiam antigamente. Quando eu era criança, com oito anos, saía de madrugada com um cesto de pães, percorria mais de vinte e quatro quilômetros vendendo pães. Quando não tinha o dinheiro, eu trocava por ovos ou um franguinho e voltava o troco. Quando voltava, vinha apanhando o que tinha comprado, voltava com o dobro do peso. Isto acontecia todos os sábados. Até que aos dezessete anos fui servir à pátria. Desabafo de José da Silva Caburé, poesias, contos e versos.
Araruama.
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