quarta-feira, 25 de fevereiro de 2026

 Espírito e alma, meus amigos inquilinos.

De mãos dadas, caminhamos na estrada da vida.

A casa já velha, destituída de tudo, sem eira nem beira.

Na  porta, uma adrabia de bronze antiga, com cara de um tigre.

Na parede, um grande retrato da família que não mais existe. 

Papai se destaca na fotografia, ostentando um terno de cacimira azul-marinho.

Uma grossa corrente de ouro, ostentando um relógio da marca Roscofe sobre seu colete.

Esse relógio deve valer várias patacas. Embora na grande casa não exista privada.

Nem existia papel higiênico. As necessidades fisiológicas eram feitas em pinicos.

Eram assim as vidas dos ricos. 

Queridos amigos inquilinos. Chegou minha hora, estou indo. Desejo-vos, em suas vidas eternas, um novo lar. 

Escrito por José da Silva Caburé. Poesias

, contos e versos.

Araruama.

quinta-feira, 12 de fevereiro de 2026

 E muita safadeza destes dois:

De tanto ficar debaixo de você, aprendi a gostar desta safadeza.

Sentindo o frescor de seu corpo sobre o meu, nos dias de verão.

No inverno, totalmente coberto dos pés à cabeça, aquecido pelo calor de seu corpo.

 Sentindo a fragrância das flores do jasmim.

No final das noites,  nos transformávamos em um, assim vamos vivendo, eu em você, você em mim.

Ninguém nos vê, só eu e você. Dois que se transformaram em um, fazendo amor na maior sem-vergonhice. Mas isto é coisa da velhice.

Assim, mais ou menos, os anos vão passando, e quanto mais passa, mais vamos amando a vida.

Rolando no chão, debaixo de um pé de araçá, coberto pela ramada do maracujá, só ouvindo o zuar da mangaba azul querendo polarizar as flores do maracujá, tendo o beija-flor como auxiliar.

Enquanto ouvimos o cantar do bentivi e do sabiá.

Esta é a história que eu tinha para lhes contar.

Escrito por José da Silva Caburé, poesias, contos e versos.

Araruama.


terça-feira, 10 de fevereiro de 2026

 O que explode em meu peito são cargas explosivas, esquecidas do tempo passado.

Era a vida que sempre me tentava, quando explodia a fumaça, me cobria, a morte não enxergava.

Pensava que tinha falecido, só sentia o cheiro da pólvora. Aqui fica provado que sempre fui um bom soldado de batalha, dando sorte, enganando a morte e os generais. Como sempre, engano minha própria vida. Só por isso que ainda vivo. Nem sei contar quantas batalhas vencidas e quantas ainda vencerei.

Mas sei que a qualquer hora terei que enfrentar a suprema morte, dela tenho a consciência que será minha derradeira batalha. Que pena, a vida ser eterna só para a alma, que habitará outro corpo: sem lembrar da sua última morada. E o espírito? O que será feito dele? Eu ainda vivo, nem sei o que pensar, só Deus para explicar. Ó, meu Deus, o que fazer? Eu amava ambos. Todos amávamos o senhor. Digo o espírito e a alma, porque meu corpo era só matéria perecível que deve ser alimento das bactérias. O que me dói é não mais existir eu. Mesmo sendo feio e pequeno, o senhor assim me fez e eu gostava de mim. Como amo e gosto do senhor, como gostava do meu corpo que o senhor fez para mim. A Deus, vida querida, a Deus o canto do rouxinol, a Deus matas verdejantes, rios, lagos e os mares, a Deus a lua e as estrelas, e o pôr do sol. 

Escrito por José da Silva Caburé, poesias, contos e versos.

Araruama.


quarta-feira, 4 de fevereiro de 2026

 Menina linda, minha linda Rapunzel

Vim te convidar a vir passear no meu barquinho de papel.

Todo enfeitado com margaridas e girassóis.

Tem revoada de borboletas coloridas entre os girassóis e margaridas.

Iremos juntos curtir a vida. Neste rio de águas límpidas e transparentes.

É tão bonito, emociona a gente. A noite cai, as estrelas vêm surgindo no clarão da lua.

O barquinho vai descendo devagarinho nas pequenas ondas deste rio. 

O sereno cai nas flores do barquinho, Rapunzel cantarola uma canção de amor

Rezo uma oração em louvor ao Senhor, porque o barquinho de papel não rasgou.

Escrito por José da Silva Caburé, poesias, contos e versos.

Araruama.



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terça-feira, 3 de fevereiro de 2026

 A morte não é um ponto final, é uma vírgula.

Tudo o que se vê é ilusionismo da alma.

A morte não é o fim, a verdade é perigosa.

O encontro com Deus, para aprender sofrer e amar.

A morte não encerra a caminhada, ela às vezes para para o corpo descansar.

O amor é o g, p. s. da alma. Somos todos do mesmo oceano.

Eu, por muitos anos, vivi junto a eles, sendo seu motorista, dirigindo um veículo Galax.

Permanecia calado,  só respondia: Sim, senhorita, Costa Brava, Zum Zum  ou jirau?

Motorista, primeiramente vamos a Santa Tereza. Pare na esquina da praça, fica à espera.

 Só ouvia desprezo à pobreza e ignorância. Não sabendo ela onde eu sabia onde iria.

Quando voltavam alegres e cantando, espalhando o cheiro forte da dona da morte.

Tal país, tais filhos; sua mãe quando era convidada para um jantar elegante na casa de algum amigo.

Quando voltava, eu olhava pelo retrovisor, escutando o tilintar dos talheres de prata roubados da casa de quem as convidou. Para ela, parecia um brinquedo valioso nas mãos de uma criança.

Coitado do amigo porteiro que morava em um pequeno apartamento junto ao motor do elevador lá no alto do edifício. Um dia, foi encontrado por ela no elevador social.  Ela bradou: 'Seu negro, no elevador social não é lugar de empregado, ponha-se em seu lugar. Não sabia ela que a mulher do porteiro era mãe de santo. Pouco tempo passou, o coitado do marido a morte o levou, deixando-os sem automóvel e sem motorista, porque trabalhava em uma firma estatal, assim como eu. Só por este motivo tenho consciência do modo como sou tratado. Até mesmo por familiares inconformados. Não sabendo eles que as vidas são transitórias, cada um, uma história. Eu  não me envergonho em contar  a minha história, a luz que ilumina as trevas como a luz solar, que ilumina a lua.

Escrito por José da Silva Caburé, poesias, contos e versos.

Araruama.


segunda-feira, 2 de fevereiro de 2026

 Coisas que passam despercebidas. Só quem tem a alma em gratidão eterna sabe valorizar a vida.

A minha gratidão eterna é reconhecer de um filho para um pai e uma mãe. Pobres, muito pobres.

Mas muito ricos de corações nobres. A minha convivência com eles durou até meus dezessete anos,

Quando fui servir à pátria. Foi daí que fiquei sabendo  que o mundo diferia do mundo em que eu vivia.

Foi aí que soube valorizar o meu velho pai e mãe. Um pai que nunca deixou faltar o pão de cada dia,

Mesmo que fosse um prato com feijão e farinha. 

Este pai que me ensinou a ser um homem trabalhador e honesto, respeitar para ser respeitado. 

Hoje, aqui neste novo mundo, sofri e ainda estou sofrendo, mesmo na modernidade, me dá saudades.

Daquele menino com os pés descalços, roupas limpas, mas velhas e desbotadas pelo tempo de uso.

Hoje uso ternos e gravatas, tendo um bom emprego um bom salário. Fui casado por duas vezes, na primeira tive dois filhos, um deles me maltratou, me acusou de ser um ladrão e ébrio. 

Nesta de agora, sou feliz, mas deveria ser melhor. Me sinto um patinho feio, sem importância. Sempre sou o último da fila. Faço de tudo para agradá-los, mas nunca tive um reconhecimento em nada que faço.

Quando falam comigo, são arrogantes, e quando falo, sou criticado. Mas com os amigos todos são educados. Se estão conversando, quando apareço a conversa acaba. Ai, que saudades do papai e da velha mãezinha, Zé, Zé. Olha o seu prato de farinha. Pergunto: quem não gosta de ser bem tratado?

Até um cão e um gato. 

Escrito por José da Silva Caburé, poesias, contos e versos.

Araruama.